Publicado em: 28/04/2016 10:03:43.131
As professoras do Departamento de Biologia da Fundação Universidade Federal de Rondônia (UNIR), doutora Carolina Doria e mestre Marília Hauser (doutoranda da Rede Bionorte/RO), conjuntamente com o pesquisador doutor Fabrice Duponchelle, do Institut de Recherche pour le Développement (IRD) da França, divulgam o resultado de um importante estudo realizado em parceria entre pesquisadores franceses, brasileiros, peruanos e bolivianos, que comprovam a migração transamazônica e homing natal da dourada - grande bagre migrador amazônico - e os possíveis efeitos das barragens sobre o grupo.
Os bagres constituem um dos principais recursos pesqueiros da Amazônia, além de exercerem relevante papel ecológico, como predadores de topo da cadeia alimentar. Algumas espécies desse grupo realizam a mais extensa migração já relatada para peixes de água doce. Esta compreende desde as zonas de reprodução nos rios de águas brancas, próximo ao sopé Andino, até a região de berçário, perto do estuário amazônico, no outro lado do continente.
Este padrão de movimento transfronteiriço foi recentemente confirmado pelos pesquisadores e publicado no Journal Applied Ecology em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.12665/abstract. Ler também em Nature - http://www.nature.com/nature/journal/v532/n7598/full/532150c.html.
Nesse trabalho foi avaliada a correlação da razão isotópica de estrôncio (87/86) entre os otólitos da nossa tão emblemática dourada - Brachyplatystoma rousseauxii e os das diferentes rochas e rios que compõem a bacia amazônica. Demostrou-se a nível de indivíduo que os peixes podem migrar mais de 8000 km entre suas zonas de nascimento no alto Madeira e o estuário no baixo Amazonas, somado ao seu retorno como adulto às mesmas zonas onde nasceram dentro do rio Madeira. Isso representa um claro comportamento de homing natal para a dourada nesta bacia, ou seja, assim como os salmões esses peixes também retornam às suas zonas de nascimento para reprodução.
Esses resultados têm profundas consequências para o manejo desse grupo de peixes, especialmente considerando o atual e previsto cenário de desenvolvimento hidrelétrico para toda a bacia Amazônica. Duas barragens construídas recentemente no rio Madeira ameaçam esse intrigante e épico processo migratório visto que podem limitar o alcance dos peixes aos seus locais de desova, podendo ocasionar efeitos deletérios em cascata, através das teias alimentares amazônicas.
Nesta perspectiva, salienta-se a necessidade de preservação da conectividade nas partes ainda não barradas das porções médias e baixas dos rios amazônicos, conjuntamente com uma coordenação integrada da gestão de políticas pesqueiras entre os países que compartilham esses recursos na bacia amazônica.
Os pesquisadores ressaltam ainda a urgência de melhorar os dispositivos de transposição de peixes nas usinas já existentes, Santo Antônio e Jirau, para assegurar a migração rio abaixo das larvas/juvenis e os movimentos ascendentes dos futuros reprodutores para suas zonas de reprodução. “Uma vez que queremos manter as pescarias dos grandes bagres no rio Madeira é imprescindível reestabelecer a conectividade neste sistema, limitando também os efeitos negativos de uma possível redução drástica dos estoques destes predadores de topo sobre o ecossistema, via cascata trófica”, destaca o artigo publicado.
Fonte:
Nature (2016)
http://www.nature.com/nature/journal/v532/n7598/full/532150c.html
J. Appl. Ecol. http://doi.org/bd45 (2016)
http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.12665/abstract
