Publicado em: 23/07/21
Pesquisadores da UNIR identificam ameaça a peixes da Amazônia


Pelo menos 41 espécies invasoras de peixes ameaçam a fauna aquática amazônica, e se medidas de contenção não forem adotadas com urgência, as consequências podem ser a extinção de espécies nativas que regulam a cadeia biológica da região e servem de sustento para comunidades tradicionais e pescadores locais. Esta é a conclusão de um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia, UNIR, em parceria com a Universidade Federal do Paraná, UFPR, publicado na íntegra na revista Frontiers (disponível neste link) e divulgado pela Folha de São Paulo.

Peixes não-nativos (NNF, na sigla em inglês non-native fish) oferecem riscos aos ambientes aquáticos no mundo todo. Um dos principais e irreversíveis impactos causados a partir da introdução de novas espécies é a extinção de espécies da região por predação, o que reduz a diversidade e leva à perda de serviços ecossistêmicos – benefícios advindos dos recursos naturais, como, por exemplo, a obtenção de água e alimentos –, funções essenciais para manutenção do ecossistema aquático e da população ribeirinha.

O estudo realizado por pesquisadores do Laboratório de Ictiologia e Pesca da UNIR, coordenado pela professora Carolina Dória, e do Laboratório de Ecologia e Conservação, da UFPR, em parceria com mais 30 pesquisadores da Região Amazônica, Estados Unidos e França, identificou a ocorrência de 1.314 peixes não-nativos de 41 espécies diferentes em rios e lagos da Amazônia. Foi constatado que o Brasil é o segundo país mais afetado pela ocorrência de espécies não nativas, atrás apenas da Colômbia, e entre os estados brasileiros chama atenção o alto número de registros para o estado de Rondônia.

Para mapear o problema, os cientistas investigaram diversas bases de dados sobre os números relativos a espécies NNF na região amazônica, desde os primeiros registros, datados dos 1930, até 2020, em todas as regiões do bioma, incluídos os países vizinhos Colômbia, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela.  A maioria das espécies NNF encontradas na Amazônia são usadas na aquicultura (12 espécies) e no comércio de aquários (12 espécies), destacando-se as ocorrências da tilápia de origem africana e do pirarucu que, apesar de nativo da bacia Amazônica, foi observado mais recentemente em igarapés e rios de localidades onde não eram registrados naturalmente em anos anteriores.

“A maioria das espécies não-nativas é oriunda de pisciculturas mal manejadas, que facilitam o escape, acidental ou intencional, para o ambiente natural. Além disso, existem lacunas na regulamentação do cultivo dessas espécies não nativas na Amazônia, e deficiências na fiscalização que ampliam as possibilidades de escape”, explicou Carolina Dória.

Os pesquisadores destacam no artigo que 75% das invasões de espécies não nativas ocorreram nos últimos 20 anos, de 2000 a 2020, o que evidencia o desequilíbrio causado pela ação do homem. “O aumento no número de registros desde 2000 parece estar ligado ao afrouxamento na regulamentação, à falta de fiscalização dos cultivos de espécies não-nativas e também ao incentivo fiscal à criação e comércio desses peixes”, disse a pesquisadora, alertando que “a ocorrência de espécies não-nativas de peixes na Amazônia representa uma ameaça, que vem aumentando ‘silenciosamente’, à biodiversidade nativa ”. E estes impactos não são imediatamente percebidos nem identificáveis, podendo causar distúrbios ou perturbações que só serão notados no futuro.

A solução, urgente e necessária, apontada pelos pesquisadores para o problema, inclui a implementação de políticas públicas para proteção da diversidade de peixes nativos da Amazônia, monitoramento e fiscalização de criadouros e manejo seguro de espécies por meio da adoção de medidas eficazes pelo poder público em parceira com os piscicultores da região. Também é preciso incluir no debate, segundo Dória, além dos setores legislativo e executivo, as universidades, por meio dos cientistas, e especialmente o setor produtivo.

Carolina Dória afirma ainda que “uma solução plausível para impedir o aumento dos peixes não-nativos e seus efeitos negativos passa obrigatoriamente pela substituição da utilização massiva de espécies exóticas por espécies, fenótipos e genótipos nativos da bacia ou sub-bacias do rio onde é realizado o cultivo; e pela aderência estrita a práticas de sustentabilidade das Nações Unidas e ao Sistema de Monitoramento Ecológico, ou seja, planejar, fazer, verificar, agir, que inclui uma série de práticas direcionadas para reduzir impactos ambientais de atividades humanas”.



Fonte: UNIR

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